MEIO AMBIENTE – Localizado no município de Cachoeira do Arari, no arquipélago do Marajó, o Território Quilombola de Gurupá abriga aproximadamente 310 famílias remanescentes de quilombos. Grande parte da população não tem açaí como base de alimentação e como principal fonte de renda. Além disso, é por meio dos rios, lagos e igarapés da região, como o rio Arari e o igarapé Gurupá, que os moradores se locomovem e pescam para a venda e a subsistência. No entanto, essas atividades essenciais para a comunidade já vêm sendo afetadas pelas temperaturas. “As populações e a biodiversidade já sofreram impactos negativos das mudanças climáticas, com as secas extremas de 2023 e 2024, mas ainda não foram caracterizadas nem medidas”, comenta Carlos Souza Jr., coordenador científico do projeto Áreas Úmidas da Amazônia , concluído pela RAISG.
Com foco em medir esses impactos e criar um plano de adaptação climática com base nos dados encontrados, um grupo de 13 pesquisadores e dois jornalistas do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), do Instituto Socioambiental (ISA) , da startup Bioflore , além de um apoiador quilombola e uma pesquisadora da Fiocruz , esteve na região entre os dias 12 e 16 de maio de 2026. A iniciativa integra os projetos Úmidas e Vulnerabilidade Área Hídrica , líder da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG) , da qual fazem parte o Imazon e o ISA.
Em parceria com a Associação de Remanescentes de Quilombo do Rio Gurupá (ARQUIG), a equipe realizou um mapeamento florestal de alta precisão em vegetação nativa e em áreas de açaizais para avaliar seus estados. Também foram feitas análises da qualidade da água dos rios e igarapés da região, bem como dos poços rasos e artesianos utilizados pela comunidade.
Os habitantes relatam a diminuição do nível dos lagos, rios e igarapés, a morte de peixes e a queda na produtividade do açaí, que apresenta frutos “queimados”, como descrevem, ainda nos cachos. Eles também mencionaram o aumento da salinidade dos rios, fenômeno agravado pela instabilidade climática que altera os regimes de seca e cheia na Amazônia. Com isso, a água do oceano adentra com maior força o estuário do Marajó entre julho e dezembro, período mais seco, tornando os corpos hídricos mais salgados do que o normal.
“O que tem afetado diretamente a produção do açaí, de forma notória, são as mudanças nos ciclos do período chuvoso e do período de seca. Se já tá quente e o cacho do açaí tá maduro e cai uma chuva (às vezes tem chuvas torrenciais), há um choque térmico, o açaí na árvore amolece e posteriormente ele seca.”, descrevendo o professor Rosivaldo Correa, residente da comunidade e presidente da ARQUIG.
“Nosso trabalho é diretamente com a comunidade. A gente quer entender os desafios para a gestão desse território, onde a principal atividade está relacionada ao açaí. Nós sabemos, com base nos dados históricos de monitoramento do MapBiomas Água, que há uma tendência de perda de superfície hídrica na escalada da bacia amazônica. Essa comunidade foi afetada pelas secas extremas, o que levou a um estresse hídrico no território local, impactando diretamente a produção do fruto, e o bem-estar das pazes e a paz”, explica Carlos.
Áreas de açaizais são mapeadas em 3D com o uso de drones
Durante três dias de campo, foram utilizados drones equipados com sensores LiDAR e câmeras RGB de alta resolução em 12 pontos ao longo do rio Arari e dos Igarapés Murucutu, Gurupá e Baixo Gurupá, para realizar o mapeamento preciso da densidade, da distribuição e das características de reprodução e mortalidade das palmeiras de açaí. A pesquisa ocorreu tanto em áreas de açaí nativo, onde as palmeiras não passam por modificações humanas, quanto em áreas manejadas, onde o vegetação é aberta e o açaí é plantado para melhorar a produção e facilitar a extração do fruto. O levantamento também incluiu extensões de açaizais nativos ainda não explorados.
A atividade foi desenvolvida com o apoio técnico da Bioflore , uma startup especializada em monitoramento ambiental por meio do sensoriamento remoto, associado ao uso da Inteligência Artificial. “Trabalhamos com o LiDAR, um tipo de sensor capaz de penetrar a copa do vegetação e gerar imagens tridimensionais da floresta. Com essas informações em 3D, conseguimos calcular a altura da observação e o estoque de carbono que as árvores armazenam. Outra tecnologia utilizada é a câmera RGB, que captura imagens em altíssima qualidade para que as pessoas possam identificar as espécies existentes aqui, a delas quantidade e conhecer melhor a biodiversidade da região”, explica Heitor Filpi, CEO da Bioflore.

O levantamento com drones permitiu mapear uma área de cerca de 300 hectares. A partir do diagnóstico detalhado dos açaizais, que ainda está em andamento, os quilombolas que se alimentam e trabalham diretamente com o fruto, poderão utilizar as informações tanto para criar um plano de adaptação climática para a comunidade, juntamente com o Imazon e o ISA, quanto para melhorar o manejo do açaí. Além disso, os dados podem apontar demandas de políticas públicas para a região e abrir novas oportunidades, como comenta Rosivaldo: “Com esse levantamento, a gente vai ter dados mais precisos e poderá elaborar projetos, participar de editais, e isso vai ser um ganho muito grande para nós.
Qualidade da água de rios, igarapés e poços do quilombo é comprovada
As mudanças climáticas também podem estar alterando a quantidade de sais minerais presentes nos rios e igarapés que banham o quilombo Gurupá. Isso ocorre porque os rios desaguam no mar e, durante os períodos de estiagem, cada vez mais intensos e frequentes devido à instabilidade do clima, o volume de água doce diminui. Com isso, o avanço sobre o leito dos rios, deixando-os com níveis de salinidade inadequados para a região.
Uma análise dos sais minerais, assim como de outras características que definem a qualidade hídrica, como o teor de oxigênio e o pH, dentre outras parâmetros, foi realizada pela pesquisadora da Fiocruz, Gina Boemer. Ela coletou duas amostras de água em pontos diferentes do rio Arari, duas no igarapé Gurupá, uma no igarapé Murutucu e duas no igarapé Aracaju, totalizando sete amostras entre o rio e os igarapés mais importantes para os quilombolas.
“A desvantagem é que a água esteja mais próxima das condições originais e que não haja grandes impactos humanos interferindo nessa qualidade hídrica. Esse equilíbrio ambiental é necessário para a manutenção da vida nesse ecossistema”, detalhando os detalhes.

As comunidades também trazem dificuldades com a água destinada ao consumo, oriunda de poços mais profundos, chamados de artesianos, e de poços rasos, denominados localmente como “poços de boca aberta”. Segundo relatos, não há tratamento adequado na comunidade, e cada família é responsável por tratar sua própria água, seja fervendo ou utilizando hipoclorito de sódio distribuído pelos agentes comunitários de saúde. Com base em informações locais, um pesquisador da Fiocruz analisou dois poços e duas torneiras usadas pela população.
A ausência de diagnóstico da qualidade da água, e as dificuldades no tratamento resultam em doenças na população, principalmente nas crianças, que em alguns casos apresentam diarreia e vômito. “Na minha casa, eu fervo a água para tomar, porque há muito tempo já sofri com algumas doenças causadas pela contaminação. Então, eu tenho certeza de que essa pesquisa vai gerar bons frutos, principalmente em relação à saúde das pessoas”, relata a coordenadora escolar e moradora Miriam Santos.
O planejamento da iniciativa prevê o retorno da equipe ao local ainda em 2026, com o objetivo de apresentar uma análise detalhada dos dados sobre o açaí e a água do Quilombo Gurupá. A partir daí, serão discutidas, com a comunidade, soluções práticas que contribuem para o enfrentamento das mudanças climáticas pelos quilombolas, que têm a floresta e os rios como território de vida.
“Em breve, vamos ter um dossiê detalhado sobre o que está acontecendo na comunidade. Existem algumas tendências sobre o que pode estar acontecendo, mas esse conjunto de dados pode nos dar perspectivas para compreender melhores essas mudanças e construir um plano de adaptação climática para o quilombo”, comenta Cícero Augusto, pesquisador do ISA.
(Foto: Daisy Feio/Imazon)
(Foto: Margarida Feio/ Imazon)
*Com informações Imazon
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