Transição Energética – Embora seja responsável por uma parcela significativa da geração de energia elétrica do país, a Amazônia Legal ainda convive com um cenário de exclusão energética que afeta milhões de moradores. Segundo a publicação “Energia: As Amazônias na agenda de transição”, produzida pela rede Uma Concertação pela Amazônia em parceria com o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), cerca de três milhões de pessoas dependem de sistemas isolados movidos principalmente a diesel e gás para ter acesso à eletricidade.
Além de serem caros e altamente poluentes, esses sistemas frequentemente funcionam por períodos limitados ao longo do dia, comprometendo a qualidade de vida e o desenvolvimento econômico das comunidades atendidas.
O estudo destaca que a exclusão energética atinge especialmente populações tradicionais, povos indígenas e moradores de áreas remotas da Amazônia Legal. Atualmente, quase um milhão de pessoas ainda não possui acesso público à eletricidade na região.
Exclusão energética afeta comunidades vulneráveis
Entre os dados apresentados pela pesquisa, chamam atenção os números relacionados às populações que vivem em territórios protegidos e assentamentos rurais.
Nas unidades de conservação, cerca de 22% da população vive sem acesso à rede pública de energia elétrica. Já em terras indígenas, aproximadamente 78 mil pessoas dependem de soluções precárias, como geradores individuais movidos a combustíveis fósseis.
Nos assentamentos rurais, mais de 212 mil moradores continuam excluídos do serviço elétrico regular. O estado do Pará concentra o maior número de pessoas nessa situação, mesmo sendo uma das principais regiões produtoras de energia do país.
Falta de energia limita desenvolvimento econômico
A ausência de acesso confiável à eletricidade também impacta diretamente a economia amazônica. De acordo com o levantamento, cerca de 221 mil estabelecimentos agropecuários da Amazônia Legal operam sem energia elétrica.
A limitação dificulta atividades fundamentais como armazenamento de alimentos, irrigação, acesso à internet, processamento da produção agrícola e geração de renda local.
Segundo o pesquisador Vinícius Oliveira da Silva, do IEMA, o modelo atual baseado em combustíveis fósseis apresenta fragilidades econômicas, ambientais e logísticas.
“O principal problema é que esses sistemas geralmente são implantados sem considerar as características locais e sem a participação das comunidades no processo de decisão”, destaca.
Região produz energia limpa, mas depende de combustíveis fósseis
O estudo aponta uma contradição no modelo energético brasileiro. Em 2020, a Amazônia Legal respondeu por 25,7% de toda a geração nacional de energia elétrica, predominantemente de fontes renováveis. No entanto, a região consumiu apenas 8,4% desse total.
Enquanto exporta energia para outras áreas do país, milhões de amazônidas continuam dependentes dos chamados Sistemas Isolados (Sisol), que operam fora do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Atualmente, 90,7% da energia produzida nesses sistemas tem origem em combustíveis fósseis. Como consequência, as emissões de gases de efeito estufa dos Sisol são 16 vezes maiores do que as registradas no sistema elétrico nacional integrado.
Energia renovável pode ser alternativa para a região
Como solução, o estudo defende a ampliação de sistemas renováveis descentralizados, capazes de atender comunidades afastadas de forma mais eficiente e sustentável.
Entre as alternativas apontadas estão os sistemas solares off-grid, que funcionam de forma independente da rede elétrica convencional e poderiam beneficiar cerca de 226 mil residências na Amazônia.
Outra possibilidade é o aproveitamento do biogás produzido pela decomposição de resíduos orgânicos urbanos, com potencial para gerar eletricidade suficiente para abastecer aproximadamente 546 mil moradias.
Para os especialistas, a Amazônia tem potencial para liderar uma transição energética baseada em fontes limpas, descentralizadas e adequadas às necessidades dos territórios. Mais do que infraestrutura, o acesso à energia é visto como uma ferramenta essencial para promover cidadania, inclusão social e desenvolvimento sustentável na região.
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