BIOECONOMIA – O conhecimento passado entre gerações se tornou uma ferramenta de geração de renda e conservação ambiental para uma família ribeirinha de São Domingos, no Pará, primeira comunidade da Floresta Nacional do Tapajós. Desde 2018, mulheres da comunidade estão à frente da Associação das Amélias, iniciativa que começou com o aproveitamento de sementes de andiroba e cresceu para incluir a produção de biocosméticos, atividades culturais e turismo de base comunitária.
A associação é coordenada por Marilene Dias da Silva, conhecida como Marica, Marileide da Silva Monteiro e Marcilene Silva Costa, com a participação do irmão, Marenildo Dias da Silva. Ao todo, 16 pessoas estão envolvidas nas atividades desenvolvidas pelo grupo.
A ideia surgiu a partir de uma situação comum na comunidade: o desperdício das sementes de andiroba. Abundante na região, o fruto era frequentemente descartado ou queimado, apesar do conhecimento tradicional da família sobre suas possibilidades de utilização.
A partir dessa percepção, as mulheres decidiram organizar a produção e transformar a matéria-prima em produtos comercializáveis, mantendo o processo artesanal e utilizando recursos encontrados na própria floresta.
Produção aproveita diferentes recursos da floresta
A associação trabalha com óleo de andiroba e copaíba, além de sementes, cipós, ervas e pigmentos naturais, como o urucum. Esses materiais são utilizados na fabricação de sabonetes, velas, repelentes, incensos e outros itens naturais.
O aproveitamento também alcança partes que anteriormente seriam descartadas. Cascas e resíduos resultantes do processamento da andiroba passaram a ter novas funções dentro da produção.
Para Marcilene Silva Costa, a proposta vai além da geração de renda. A atividade busca estabelecer uma relação equilibrada entre a comunidade e os recursos naturais disponíveis no território.
A coleta segue critérios de uso consciente, evitando a retirada excessiva dos recursos. A preocupação é garantir que a floresta continue oferecendo matéria-prima para as próximas gerações.
Apoio ajuda a fortalecer marca e acesso ao mercado
O trabalho desenvolvido pela associação ganhou novos caminhos com a participação no projeto Iconografia Local – Bioma Amazônico, desenvolvido pelo Sebrae para valorizar a identidade cultural de pequenos negócios da região.
A iniciativa contribuiu para a reformulação da identidade visual dos produtos das Amélias, incorporando elementos associados ao território e ao carimbó, manifestação cultural presente na identidade da comunidade.
Além de aprimorar rótulos e apresentação dos produtos, o processo ajudou as associadas a ampliar a percepção sobre posicionamento de marca e estratégias de mercado.
Com a nova identidade, a associação passou a buscar maior participação em feiras e eventos e também ampliou os canais de comercialização. Entre os avanços está a criação de uma loja virtual e a participação em editais.
Turismo aproxima visitantes da cultura ribeirinha
A atuação da Associação das Amélias não se limita à fabricação de biocosméticos. O grupo também criou o Roteiro das Amélias, experiência de turismo de base comunitária que apresenta aos visitantes aspectos da vida e da cultura local.
O roteiro inclui trilhas pela região, visita a um meliponário de abelhas nativas e apresentações de carimbó. A proposta é oferecer ao visitante uma experiência ligada ao território, ao conhecimento tradicional e à biodiversidade amazônica.
A atividade também abre novas possibilidades de participação para os jovens da comunidade, aproximando as novas gerações do empreendimento familiar e dos conhecimentos transmitidos pelos mais velhos.
Projeto do Sebrae incentiva bioeconomia no Baixo Amazonas
O projeto Iconografia Local – Bioma Amazônico é desenvolvido pelo Sebrae desde 2024 e tem como uma de suas propostas transformar referências da sociobiodiversidade em produtos com identidade regional e maior potencial de mercado.
No Baixo Amazonas, 20 empreendedores participaram de oficinas, mentorias e capacitações voltadas para gestão, inovação e comercialização. O trabalho resultou em uma publicação apresentada durante a COP 30 e alcançou empreendimentos de diferentes segmentos.
Além da Associação das Amélias, a iniciativa envolveu negócios relacionados à moda, biojoias, mobiliário e artesanato, todos com produtos inspirados em referências culturais e naturais da Amazônia.
Conhecimento tradicional como oportunidade
A experiência da família ribeirinha mostra como o conhecimento tradicional pode ser associado a estratégias de mercado sem deixar de lado a conservação dos recursos naturais.
Ao transformar sementes que antes eram descartadas em produtos, experiências turísticas e novas oportunidades de trabalho, as mulheres da Associação das Amélias passaram a utilizar a biodiversidade como fonte de renda de maneira planejada.
*Com informações Agência Sebrae
* Foto: Rafa Neddermeyer
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