Meio Ambiente – Pesquisadores brasileiros desenvolveram um índice capaz de medir a saúde do solo em manguezais, ecossistemas considerados fundamentais para o equilíbrio ambiental e o combate às mudanças climáticas.
Chamado de Índice de Saúde do Solo (ISS), o indicador utiliza uma escala que varia de 0 (pior condição) a 1 (melhor condição) para avaliar o funcionamento do solo nesses ambientes. O método foi descrito em estudo publicado na revista científica Scientific Reports.
A ferramenta foi aplicada em manguezais preservados, degradados e restaurados, revelando diferenças significativas entre os estágios de conservação. Os resultados mostram que manguezais saudáveis — incluindo áreas recuperadas — conseguem manter serviços ecossistêmicos próximos da capacidade máxima. Já áreas desmatadas apresentam apenas uma pequena parte desse potencial.
O índice foi desenvolvido a partir da análise integrada de variáveis físicas, químicas e biológicas do solo, que refletem o funcionamento do ecossistema.
Entre os fatores considerados estão a dinâmica do carbono, a presença de minerais de ferro capazes de fixar contaminantes e indicadores biológicos ligados à atividade de microrganismos responsáveis pela ciclagem de nutrientes.
Importância ambiental dos manguezais
Os manguezais são frequentemente chamados de “florestas de carbono azul”, pois possuem grande capacidade de absorver dióxido de carbono da atmosfera e armazenar carbono orgânico no solo por longos períodos.
Além de atuarem como importantes reservatórios de carbono, esses ecossistemas também desempenham funções essenciais, como:
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proteção contra erosão costeira
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manutenção da biodiversidade
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suporte à pesca e subsistência de comunidades tradicionais
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filtragem natural de poluentes
Apesar de sua relevância ambiental, estimativas indicam que entre 30% e 50% dos manguezais do planeta foram perdidos nos últimos 50 anos, devido à expansão urbana, desmatamento e mudanças climáticas.
Manguezais no Brasil
O Brasil possui a segunda maior área de manguezais do mundo, com aproximadamente 1,4 milhão de hectares, ficando atrás apenas da Indonésia.
O país também abriga o maior trecho contínuo desse ecossistema, localizado entre os estados do Amapá e Maranhão. A região concentra uma rica biodiversidade, com mais de 770 espécies de fauna e flora associadas a esses ambientes.
Resultados da pesquisa
O índice foi aplicado no estuário do Rio Cocó, no estado do Ceará, onde foram analisadas áreas preservadas, degradadas e em processo de recuperação.
Os manguezais maduros apresentaram os maiores valores de ISS, chegando a 0,99, indicando alto nível de saúde do solo. Já áreas degradadas registraram índices próximos de 0,25, revelando forte comprometimento do funcionamento ecológico.
Em regiões que passaram por restauração ambiental, os valores foram intermediários, com 0,37 em áreas recuperadas há nove anos e 0,52 em áreas restauradas há 13 anos, demonstrando que o processo de recuperação ocorre de forma gradual.
Aplicação para políticas ambientais
De acordo com a pesquisadora Laís Coutinho Zayas Jimenez, o objetivo do índice é facilitar o uso de informações científicas na tomada de decisões por gestores ambientais.
“Montamos uma escala de 0 a 1 para acompanhar o restabelecimento do ecossistema ao longo do processo de recuperação”, explicou.
O estudo foi desenvolvido durante seu doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Atualmente, a pesquisadora atua na Fundação Florestal de São Paulo e participa de um projeto que busca medir o estoque de carbono em manguezais paulistas e identificar a presença de contaminantes, como metais pesados, nesses ambientes.
Segundo os cientistas envolvidos, o novo índice pode ajudar a orientar ações de conservação e restauração de manguezais, além de reforçar o papel desses ecossistemas no enfrentamento da crise climática global.
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