Por Laís Victor – Especialista em energias renováveis e Diretora Executiva de Parcerias
A Amazônia entrou definitivamente no radar da transição energética global. O que antes era tratado majoritariamente como promessa ambiental passou a assumir contornos geopolíticos, econômicos e energéticos. Em 2026, o desafio central será transformar compromissos internacionais e discursos institucionais em projetos concretos, com impacto real no território e previsibilidade para investidores. Esse movimento também reposiciona a região no centro da disputa global por capital climático, cadeias produtivas de baixo carbono e reputação internacional.
Da agenda climática ao planejamento energético
A realização da COP30 no Brasil marcou um ponto de inflexão na forma como a Amazônia é percebida no cenário internacional. Mais do que palco do debate climático, a região passou a ser compreendida como parte essencial da solução energética global. Segundo publicações técnicas e estudos de planejamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a região Norte concentra desafios estruturais relevantes, mas também oportunidades estratégicas associadas à bioenergia, à biomassa, aos combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e à descarbonização de sistemas isolados ainda fortemente dependentes de fontes fósseis.
Esse novo enquadramento reforça a Amazônia como ativo energético e econômico, mas também evidencia a necessidade de integrar a agenda climática ao planejamento setorial. De acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME), a transição energética brasileira exige coordenação entre política energética, infraestrutura e desenvolvimento regional, algo especialmente sensível em territórios com grandes lacunas históricas de acesso à energia.
Infraestrutura: o elo crítico da transição
Apesar do potencial, a transição energética na Amazônia não se sustenta apenas em ativos naturais. Dados e análises operacionais do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indicam que limitações de transmissão, fragilidade das redes e a presença de sistemas isolados impõem desafios técnicos relevantes e elevam custos. Sem energia confiável, soluções de armazenamento e logística adequada, a bioeconomia e a industrialização sustentável permanecem restritas a iniciativas pontuais.
Em muitos casos, a viabilidade econômica passa por soluções híbridas, renováveis combinadas com armazenamento, capazes de reduzir gradualmente a dependência do diesel, os riscos logísticos e os custos operacionais. Nesse sentido, a infraestrutura energética deixa de ser um tema técnico secundário e passa a ser condição habilitadora do desenvolvimento econômico regional.
O risco de repetir velhos modelos com novos rótulos
A aceleração da agenda climática também traz riscos. A pressa por resultados pode reproduzir modelos extrativistas já conhecidos, agora sob o rótulo de “energia limpa”. Segundo relatórios internacionais da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), transições energéticas mal desenhadas tendem a concentrar benefícios e externalizar impactos, especialmente em regiões com baixa governança territorial.
Projetos desconectados da realidade local, sem mecanismos claros de participação social, repartição de benefícios e transparência, tendem a aprofundar desigualdades e gerar conflitos socioambientais. Para investidores, esses fatores se traduzem em riscos concretos: insegurança fundiária, entraves no licenciamento, ausência de licença social e exposição reputacional em um ambiente de crescente escrutínio internacional.
Uma janela de oportunidade — com condições claras
Por outro lado, há uma janela de oportunidade real. De acordo com análises do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), instrumentos de financiamento climático, quando combinados com investimento privado e políticas públicas bem estruturadas, podem viabilizar projetos de transição energética com impacto territorial positivo. Na Amazônia, isso significa ir além da geração de energia e estruturar cadeias produtivas locais, gerar empregos qualificados e valorizar o conhecimento tradicional aliado à inovação tecnológica.
Para o mercado, a mensagem é objetiva: a Amazônia deixou de ser apenas uma agenda reputacional. Trata-se de uma fronteira estratégica de negócios, mas que exige critérios rigorosos desde a concepção dos projetos. Governança territorial, rastreabilidade socioambiental, parcerias locais e desenho técnico compatível com a realidade da infraestrutura regional passam a ser diferenciais competitivos. Projetos que não incorporarem esses elementos desde o início tendem a enfrentar maiores custos, atrasos e riscos de inviabilidade.
O que observar em 2026
Em 2026, a transição energética na região Norte será definida por escolhas concretas. Avanços regulatórios e novos instrumentos financeiros precisarão sair do papel, enquanto projetos estruturantes de transmissão, armazenamento e soluções híbridas determinarão a viabilidade econômica da descarbonização dos sistemas isolados. Ao mesmo tempo, ganharão protagonismo modelos de financiamento capazes de combinar capital público, privado e climático com foco territorial — sem isso, o discurso da transição seguirá distante da realidade amazônica.
Da promessa à implementação
A partir de 2026, a pergunta central deixa de ser se a Amazônia faz parte da transição energética. A questão passa a ser como essa transição será conduzida, e sob quais critérios. O Brasil tem diante de si uma escolha estratégica: repetir erros históricos, exportando valor e internalizando impactos, ou construir um modelo de desenvolvimento energético que combine competitividade, inclusão e integridade territorial.
Na minha avaliação, a Amazônia pode se tornar o maior ativo da transição energética brasileira. Mas isso só será possível se planejamento, investimento e governança caminharem juntos. Caso contrário, o risco é transformar uma oportunidade histórica em mais um ciclo de promessas não cumpridas, agora embaladas por um discurso verde, mas sem transformação estrutural.
Sobre a autora
Laís Victor é especialista em energias renováveis e diretora executiva de parcerias, com 15 anos de atuação no setor de energia. Sua trajetória inclui desenvolvimento de negócios, estruturação de alianças estratégicas e apoio à atração de investimentos para projetos de transição energética, com foco na construção de ecossistemas sustentáveis e inovação no mercado global de renováveis.






