A Amazônia ocupa hoje um lugar central no debate global sobre clima, sustentabilidade e o futuro da economia. Bioeconomia, soluções baseadas na natureza, créditos de carbono e desenvolvimento sustentável tornaram-se conceitos recorrentes em fóruns internacionais, relatórios multilaterais e estratégias corporativas. O interesse é real, a biodiversidade é singular e a narrativa é poderosa. Ainda assim, quando o discurso avança para o campo concreto dos investimentos produtivos estruturantes, a região segue apresentando um paradoxo persistente.
Há muito potencial, mas poucos projetos economicamente viáveis em escala. A pergunta que precisa ser feita, com pragmatismo e sem romantização, é direta: por que, apesar de tanta atenção internacional e de uma base de recursos naturais única, a Amazônia ainda não se consolidou como uma fronteira relevante de investimentos produtivos ligados à bioeconomia?
A resposta passa menos pela ausência de capital interessado em sustentabilidade e mais pela dificuldade histórica de integrar três dimensões fundamentais, bioeconomia, energia e capital, sob uma lógica econômica consistente. Enquanto essas agendas continuarem desconectadas, o discurso seguirá sofisticado, mas o investimento permanecerá seletivo, pontual e limitado.
Bioeconomia amazônica: potencial reconhecido, estrutura insuficiente
A bioeconomia amazônica é frequentemente apresentada como a principal alternativa de desenvolvimento sustentável para a região. O conceito é sólido: gerar valor econômico a partir da biodiversidade, mantendo a floresta em pé, promovendo inclusão social e inserção em mercados de maior valor agregado. Relatórios do Banco Mundial reconhecem que regiões megadiversas como a Amazônia possuem alto potencial para crescimento econômico sustentável, desde que conectadas a cadeias produtivas estruturadas, infraestrutura adequada e governança econômica sólida.
Na prática, entretanto, grande parte das iniciativas associadas à bioeconomia amazônica ainda opera em pequena escala, de forma pulverizada e com forte dependência de subvenções públicas, cooperação internacional ou programas pontuais de fomento. Análises do BNDES mostram que a ausência de padronização produtiva, a fragilidade dos modelos de governança e a baixa previsibilidade operacional dificultam a transformação dessas iniciativas em ativos capazes de atrair capital privado estruturado.
Esse conjunto de limitações não invalida a relevância socioambiental desses projetos, mas ajuda a explicar por que eles raramente evoluem para empreendimentos economicamente viáveis em escala. O capital não se afasta da bioeconomia enquanto conceito. Ele se afasta da falta de escala, de previsibilidade e de maturidade econômica. Sem estrutura produtiva, a bioeconomia corre o risco de permanecer restrita ao campo do projeto-piloto, reproduzindo, sob uma nova roupagem verde, antigas assimetrias econômicas da região.
Energia: o gargalo estrutural da viabilidade econômica
Um dos fatores menos explorados, e mais determinantes, no debate sobre bioeconomia amazônica é a infraestrutura energética. Não existe projeto economicamente viável sem acesso à energia confiável, previsível e competitiva. Essa condição é válida para qualquer atividade produtiva, mas torna-se ainda mais crítica em territórios extensos, remotos e historicamente marcados por baixa infraestrutura.
Dados da Empresa de Pesquisa Energética, apresentados nos Planos Decenais de Expansão de Energia e em relatórios específicos sobre sistemas isolados, indicam que a região Norte concentra mais de 200 sistemas isolados de energia elétrica, atendendo cerca de 3 milhões de pessoas fora do Sistema Interligado Nacional (SIN). Nesses sistemas, mais de 90% da geração ainda depende de óleo diesel, com custos de geração que podem ser de três a cinco vezes superiores aos observados no SIN.
Esse modelo é sustentado por subsídios da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), que superam R$ 7 bilhões por ano, segundo dados consolidados do Ministério de Minas e Energia e da própria EPE. Trata-se de uma estrutura energética cara, instável e altamente dependente de logística complexa, fatores que comprometem diretamente a competitividade econômica de qualquer empreendimento produtivo.
Relatórios da Agência Nacional de Energia Elétrica reforçam esse diagnóstico ao apontar que, em sistemas isolados, o custo da energia pode ultrapassar R$ 1.000 por MWh, enquanto no SIN os valores médios oscilam entre R$ 200 e R$ 300 por MWh. Essa diferença cria um obstáculo estrutural à industrialização local, à agregação de valor e à celebração de contratos de longo prazo, elementos essenciais para a viabilidade financeira de projetos de bioeconomia.
Projetos que ignoram a dimensão energética tendem a nascer frágeis. Sem energia estável e acessível, não há processamento contínuo, não há ganho de produtividade e, sobretudo, não há previsibilidade de custos. E sem previsibilidade de custos, não há investimento estruturado.
Capital: pragmatismo, risco e estrutura
Há uma leitura recorrente de que o capital privado evita a Amazônia por aversão ao risco ou falta de sensibilidade ambiental. Essa interpretação simplifica excessivamente o problema. O capital é seletivo, mas não é irracional. Ele busca retorno compatível com risco, estabilidade regulatória, governança clara e modelos de negócio replicáveis.
Relatórios da International Renewable Energy Agency, como o Innovation Landscape for Sustainable Development Powered by Renewables (2026), são explícitos ao afirmar que projetos sustentáveis só atraem capital quando combinam infraestrutura energética adequada, escala mínima, previsibilidade regulatória e riscos claramente mapeados e mitigáveis. Sustentabilidade ambiental, por si só, não compensa fragilidade econômica.
O desafio amazônico, portanto, não está na escassez de capital interessado em impacto, mas na escassez de projetos estruturados sob uma lógica econômica clara. Enquanto bioeconomia, energia e capital continuarem operando em silos, a Amazônia seguirá sendo percebida como um território de iniciativas singulares, porém pouco escaláveis. Singularidade não substitui modelo de negócio.
Da narrativa à estrutura econômica
A Amazônia não precisa de mais discursos inspiradores. Precisa de integração estratégica. Transformar seu potencial em projetos economicamente viáveis exige alinhar biodiversidade, infraestrutura energética e capital sob uma mesma lógica de desenvolvimento.
O futuro da bioeconomia amazônica não será definido apenas pela abundância de recursos naturais ou pelo crescente interesse internacional, mas pela capacidade de estruturar projetos ambientalmente responsáveis, socialmente inclusivos e economicamente sólidos. É nessa convergência, e não na retórica, que reside a verdadeira oportunidade de desenvolvimento sustentável da região e sua consolidação como fronteira legítima de investimentos produtivos.
Sobre a autora
Laís Victor é especialista em energias renováveis e diretora executiva de parcerias, com mais de 15 anos de atuação no setor de energia. Atua no desenvolvimento de negócios, na estruturação de alianças estratégicas e no apoio à atração de investimentos para projetos de transição energética, com foco em governança, integração sistêmica e acompanhamento contínuo da evolução regulatória, operacional e de mercado no Brasil e no cenário internacional.







