A Amazônia sempre foi vista como um bioma essencial para o equilíbrio climático do planeta. Mas, nos últimos anos, passou a ser reconhecida também como um ativo estratégico para a transição energética global. Sua imensa biodiversidade, sua abundância de biomassa e sua capacidade de geração de produtos de origem florestal colocam o Brasil em posição privilegiada em um mercado que cresce rapidamente: o da bioeconomia e dos biocombustíveis sustentáveis.
Segundo a IEA, para cumprir os cenários de neutralidade climática, a produção global de biocombustíveis precisaria praticamente triplicar até 2030, com forte expansão das rotas avançadas (resíduos, biometano, biodiesel de baixo carbono). Esse movimento abre uma oportunidade única para regiões que possuem biomassa renovável, capacidade produtiva e conhecimento tradicional, características que a Amazônia reúne como poucas áreas do mundo.
Ao mesmo tempo, os mercados de SAF (combustível sustentável de aviação), biometano, diesel verde e etanol avançado começam a se consolidar como pilares de uma nova matriz global. A demanda internacional cresce em ritmo acelerado, enquanto a oferta global ainda é limitada. Segundo estudos recentes da EPE (2024), o Brasil está entre os poucos países com condições reais de expandir a produção de biocombustíveis sustentáveis em grande escala — especialmente etanol, biodiesel avançado, biometano e SAF e, assim, atender parte relevante desse novo mercado.
Observo que estamos diante de uma janela rara: a convergência entre bioeconomia, inovação e descarbonização pode reposicionar a Amazônia não como uma região “carente”, mas como um centro de valor estratégico, capaz de gerar renda, atrair investimentos e liderar soluções sustentáveis em escala global.
Mas essa oportunidade exige visão. E, sobretudo, respeito ao território e às pessoas que fazem desse bioma um patrimônio vivo.
A Amazônia e sua força bioeconômica: onde a biodiversidade encontra a energia
A Amazônia é reconhecida pela comunidade científica internacional como um dos biomas mais biodiversos do planeta, abrigando uma parcela significativa, frequentemente estimada em cerca de 20% da diversidade biológica mundial (IPBES, 2020). Esses ativos são fundamentais para desenvolver cadeias produtivas de combustíveis sustentáveis que não pressionam o desmatamento e que, ao contrário, podem contribuir para reduzir a abertura de novas áreas, quando bem geridos.
Diversos estudos da Embrapa Amazônia Ocidental e de outras unidades de pesquisa têm demonstrado que espécies regionais, como dendê cultivado em áreas degradadas, babaçu, tucumã, açaí e resíduos de madeira manejada possuem elevado potencial para produção de óleo vegetal, biomassa e até etanol de segunda geração. Além disso, resíduos agrícolas e agroindustriais amplamente disponíveis na região, como casca de mandioca, bagaço de cana em polos produtivos e restos de processamento de palmito, podem alimentar rotas eficientes de bioenergia, ampliando alternativas sustentáveis para a Amazônia. Esse conjunto de matérias-primas coloca a Amazônia em um ponto de vantagem: o potencial não está apenas nas florestas, mas nos sistemas produtivos já existentes muitos deles liderados por comunidades tradicionais, agricultores familiares e cooperativas.
Percebo que esse é um dos maiores diferenciais competitivos da região.
Enquanto outros países disputam biomassa limitada, a Amazônia possui diversidade, volume e capacidade de regeneração.
O desafio não é falta de recursos; é construção de modelos que integrem sustentabilidade, ciência e inclusão social.
O biometano como energia limpa, competitiva e amazônica
Segundo a ABiogás, o biometano figura hoje como um dos ativos mais promissores da matriz energética nacional. Em um cenário de expansão plena da produção, com aproveitamento de resíduos agropecuários, urbanos e industriais, o biometano poderia substituir uma parcela significativa do diesel importado, contribuindo para reduzir vulnerabilidades externas e avançar na descarbonização.
Na Amazônia, essa oportunidade é ainda mais estratégica.
A região produz volumes expressivos de resíduos orgânicos provenientes de:
- piscicultura;
- fruticultura;
- processamento de açaí;
- produção de mandioca;
- agroindústrias locais;
- resíduos urbanos ainda subaproveitados.
Hoje, grande parte desses resíduos é descartada sem qualquer aproveitamento energético, liberando metano, um gás de efeito estufa com potencial de aquecimento global cerca de 27 vezes maior que o CO₂ em um horizonte de 100 anos (IPCC, 2021). Transformá-los em biometano significa converter um passivo ambiental em uma fonte limpa de energia.
Além disso, o biometano tem características especialmente adequadas à realidade amazônica:
- pode substituir o diesel no transporte fluvial e em frotas municipais;
- pode alimentar minirredes híbridas, reduzindo dependência de termelétricas;
- pode gerar renda para comunidades envolvidas nas cadeias de resíduos;
- pode atrair investimentos privados em infraestrutura descentralizada.
Na minha análise, o biometano representa uma das rotas mais promissoras de soberania energética amazônica, porque reduz custos logísticos, diminui riscos de transporte de combustível fóssil e fortalece cadeias locais de produção.
É energia limpa produzida onde a energia é mais cara.
É tecnologia adequada a territórios onde o diesel chega por avião.
É desenvolvimento que nasce de resíduos e retorna como oportunidade.
Onde Bioeconomia e energia se encontram
A Amazônia reúne os elementos que o mundo inteiro procura: biomassa sustentável, biodiversidade abundante, conhecimento tradicional, oportunidades de regeneração e rotas tecnológicas que podem transformar vidas. O biometano, os óleos vegetais de sistemas sustentáveis, as agroflorestas e os resíduos valorizados mostram que a bioeconomia é mais do que um discurso, é um caminho real para gerar emprego, renda e autonomia econômica em territórios que sempre ficaram à margem do modelo energético nacional.
Se o Brasil quiser ocupar um lugar de protagonismo na transição energética global, esse movimento começa pela Amazônia, não apenas porque é estratégico, mas porque é justo. E porque a região tem, finalmente, a chance de liderar uma agenda que une ciência, floresta e gente.
Sobre a autora
Laís Víctor é especialista em energias renováveis e diretora executiva de parcerias, com 15 anos de atuação no setor de energia. Sua atuação inclui o desenvolvimento de negócios, estruturação de alianças estratégicas e apoio à atração de investimentos para projetos de transição energética, com foco na construção de ecossistemas sustentáveis e inovação no mercado global de renováveis.






