Apesar dos efeitos da pandemia e da oscilação de preços em meio a crise entre Rússia e Ucrânia,  os bons resultados e a resiliência do agronegócio têm despertado o interesse dos investidores. Ciente da janela de oportunidade, o setor tem se movimentado para oferecer produtos financeiros cada vez mais atraentes.

Os números comprovam o apetite pelo agro. “Dos 46 IPOs realizados no Brasil em 2021, 11 foram de companhias do agronegócio, o que é um recorde”, disse Gilson Finkelsztain, CEO da B3, durante o Congresso Brasileiro do Agronegócio realizado nesta semana em São Paulo. “Desde o lançamento do Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro), em agosto de 2021, são mais de 70 mil investidores no produto.”

Ele ainda citou o recente lançamento do índice de empresas do agronegócio (IAGRO B3), composto pelos 32 ativos mais negociados na bolsa. Juntos, eles chegam a R$ 700 bilhões de valor de mercado.

“O diferencial é que ele contempla não só empresas do setor primário, mas também fornecedoras de insumos, agroindústrias, comércio e empresas de transporte, por exemplo. Assim, os investidores passam a contar com um termômetro para medir a performance das empresas do setor”, disse Finkelsztain.

Fabiana Perobelli, superintendente de Relacionamento com Clientes da B3 e uma das painelistas do congresso, reforçou que o agronegócio é uma opção natural para o investidor que busca diversificar, especialmente pessoa física. “Isso ganhou força com a saída do governo como principal financiador. E o mercado de capitais está assumindo este papel, reforçado com a criação de instrumentos simples e acessíveis, como o Fiagro, com cotas a partir de R$ 10”, disse. Nesta reportagem, mostramos que os Fiagros são bons pagadores de dividendos, mas há riscos.

Segundo ela, aproveitar bem as oportunidades depende do foco do investidor. “Se o perfil é de uma visão de renda fixa, há opções como a LCA, que vai dar uma taxa fixa de remuneração, e o CRA, emitido por empresas. Já na renda variável, há desde as ações até o próprio Fiagro, em que o investidor se torna sócio de uma fazenda e ajuda na produção agrícola com um preço acessível”, diz Perobelli.

Sustentabilidade no radar

O mercado já sinaliza que a “linha verde” tende a despontar ainda mais nos próximos anos, especialmente nos negócios do agro. De olho nisso, Finkelsztain revelou na abertura do Congresso do Agronegócio que a B3 já avalia um subíndice voltado ao desempenho de empresas do agro em ESG. “Essas práticas não são transitórias e entendemos que já devem estar embutidas no negócio”, afirmou.

O próprio setor está ciente disso. Luiz Carlos Corrêa Carvalho, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), ressaltou que investimento é resultado de confiança. Diante de um momento de incertezas no cenário global e pressão por práticas mais sustentáveis, o agro brasileiro precisa ser protagonista por meio da integração. “O Renovabio e o mercado de carbono, por exemplo, têm grande potencial de crescimento. Certamente veremos outros produtos semelhantes, especialmente atrelados à certificação e rastreabilidade”, afirmou.

Para Perobelli, da B3, à medida que os instrumentos ficarem mais acessíveis e houver um ecossistema preparado para certificar, haverá oferta de títulos verdes vinculados ao agro que podem ser uma forma de o investidor diversificar e contribuir para a pauta ambiental.

“Na hora que tiver oferta, vamos ter discussões de preço mais interessantes e o produtor também vai poder buscar estes títulos como alternativa de financiamento para o seu trabalho”, disse. A superintendente da B3 também reforçou que o somatório da emissão de títulos verdes, sociais e sustentáveis (incluindo debêntures, CRAs, CRIs e cotas de fundos fechados) saltou de R$ 6 bilhões, em 2020, para R$ 30 bilhões, em 2021. Só no 1º semestre de 2022, o montante já soma R$ 40 bilhões.

Dicas para investir no agronegócio

Mas como investir no agronegócio para diversificar a carteira sem correr riscos? Entender a volatilidade do setor é essencial para o investidor, afirma Marcos Jank, coordenador do centro Insper Agro Global. Segundo ele, é preciso estar ciente que os preços oscilam e que nenhum país é capaz de defini-los por si só.

“Tivemos alta devido à pandemia, guerra e clima, e aí veio a recessão. Tudo indica que os preços cairão novamente, mas ninguém sabe quando. Portanto, o investidor precisa estar preparado para lidar com essa volatilidade”, diz.

O cuidado deve ser ainda maior para quem não tem familiaridade com as peculiaridades do agronegócio. Afinal, de acordo com Jank, assim como outros setores da economia, o agro tem empresas extremamente seguras, mas há muitos “aventureiros”.

“Quem já está no setor tem mais facilidade de separar o joio do trigo. E isso abre um caminho interessante para os próprios produtores rurais investirem. Afinal, eles conhecem a ampla atuação do agro, do campo à cidade, o que os torna naturalmente investidores muito qualificados”, ressaltou.

Perobelli, da B3, também recomenda buscar o apoio das corretoras. “Elas têm áreas dedicadas ao agronegócio, dependendo do seu perfil e forma de operar, e vão ajudar no caminho de entendimento das melhores oportunidades”, sugere.

 

Fonte: Estadão