E por que isso não é feito? Por que os governantes e a classe política só raciocinam com o critério quadrienal eleitoral? Há um vício de análise e de solução dos problemas, ou é necessário pereniza-los na lógica perversa do messianismo eleitoreiro?

É inadiável e vital para a Amazônia Ocidental que se promova a diversificação da economia a partir do Polo Industrial de Manaus. A economia precisa ser interiorizada e nós já sabemos o que é preciso fazer. Ou melhor: sabemos o que é proibir continuar fazendo. Não faltam recursos, talvez a gestão esteja padecendo de revisão, avaliação e discussão de resultados. Um fio da meada? Quem sabe um pouco mais de transparência e decisões compartilhadas, com certeza. Temos uma fonte de indicadores de desempenho da indústria – disponíveis no portal do CIEAM – que medem o crescimento do Polo Industrial de Manaus – que mostram um termômetro dos recursos gerados e compartilhados com o poder público. E os mostram dados são deveras eloquentes. Nos três últimos anos, houve um crescimento positivo medido em reais de 14,26% em 2020 em relação ao ano anterior e um negativo com redução de -13,74% tendo o dólar como moeda demonstrativa. No ano seguinte, 2021, o segundo ano de pandemia, o crescimento em reais foi de 31,90 e de 28,21% quando utilizada a moeda americana. Ou seja, mesmo com a escassez de suprimentos, a indústria bateu recordes nacionais de crescimento. E os dados compilados pela Suframa, no período, mostram ainda uma expansão do faturamento. Com esses indicadores, poderíamos imaginar que apenas a indústria poderia cuidar da sobrevivência da população do Amazonas e assegurar sensatos IDHs. Mas não é assim que tem funcionado. Os indicadores da vulnerabilidade social e insegurança alimentar do Estado não param de crescer. E onde está o problema? A solução não é da indústria, embora ela seja a mais atingida pela cobrança de melhoria de vida da população. É justo?

Os empregos – que tiveram uma perda de 50% durante o primeiro ano da pandemia – voltaram aos patamares de 2019 e hoje o Amazonas gera aproximadamente 110.000 empregos, no Polo Industrial de Manaus. Multiplicados por cinco, os empregos indiretos chegam 550.000 postos de trabalho a partir da indústria. Segundo o IBGE, Maranhão e Amazonas, a propósito, são os estados mais empobrecidos do país. As demais atividades da cidade e do interior do Estado, curiosamente, pagam os mesmos impostos, proporcionalmente, aos estados mais ricos e não usufruem os benefícios dos segmentos incentivados da capital. Por que não chega até eles os benefícios que são gerados em Manaus?

Voltemos aos dados do CIEAM. Eles explicam com números a razão pela qual supomos que falta gestão competente e transparência efetiva para a montanha de recursos repassados ao poder público local. Vejamos os valores repassados nos últimos cinco anos repassados aos cofres da Fazenda Estadual: o FTI, Fundo de Turismo e Interiorização do Desenvolvimento: R$ 6.070.728,00; o FMPES, Fundo de Micro e Pequenas Empresas: R$ 1.297.025,00 e, finalmente, o Fundo UEA, Universidade do Estado do Amazonas: R$ 2.857.145,00. Ou seja, a cada um dos últimos cinco anos, em média, foram repassados mais de R$1,2 bilhão para gerar atividade econômica e qualificação acadêmica de nível superior. No total, R$ 10.234.898,00, o PIB de alguns países do Continente. Por que esses recursos não mudam a paisagem socioeconômica como deveriam? E o que é preciso para que isso aconteça? Quem sabe?

Oportunidades de negócios não nos faltam. Um potencial enorme está disponível apenas nas margens dos rios. Comecemos pela pesca artesanal na era das piracemas, algo jamais ordenado na região. Desperdício de proteína e ausência de gestão responsável. A agricultura de várzea é outro exemplo, que dispensa adubo, pois a cada vazante dos rios camadas generosas de nutrientes naturais chegam a propiciar duas safras de alguns itens de plantio de ciclo curto. Nossa fruticultura produz algumas das melhores frutas do mundo: do cupuaçu ao açaí, da banana ao abacaxi, da pimenta ao jerimum, uma quantidade deliciosa e variada de tubérculos. Ao poder público caberia ordenar essa infraestruturação, atento à relação entre meio ambiente e desenvolvimento. Caberia, também, ser a interface da economia com a infraestrutura competitiva dos transportes, de energia alternativa e de comunicação avançada. Recursos financeiros e humanos não faltam. É preciso integrar a oferta da inovação tecnológica com a demanda cotidiana das comunidades ribeirinhas.

As universidades públicas existentes precisam aprumar a lupa das necessidades de qualificação tecnológica na relação homem, natureza do beiradão, sustentabilidade e prosperidade. Os 62 municípios devem ter agências locais de difusão e aplicação do conhecimento. A academia, paga pela indústria, precisa usar o dinheiro que ela investe para ajustar pesquisa, desenvolvimento, inovação e mercado. Transportes leves e rápidos na logística fluvial, energia solar e de biomassa, comunicação do satélite que é subutilizado em acesso à rede mundial de computadores. Por que falta habilidade e, de novo, gestão.

E por que isso não é feito? Por que os governantes e a classe política só raciocinam com o critério quadrienal eleitoral? Há um vício de análise e de solução dos problemas, ou é necessário pereniza-los na lógica perversa do messianismo eleitoreiro? A quem recorrer se a divisão social de atribuições e responsabilidades são desconectadas institucionalmente. Propositalmente? Ou faltam lideranças, métricas de apuração e de definição de objetivos e resultados? Os tribunais existentes – são tantos – estão qualificados para julgar essas anomalias administrativas? E as entidades de classe, de trabalhadores e investidores o que deveriam fazer a respeito? Quantas perguntas, quanta angústia e indignação!

Cantor e compositor baiano, Caetano Veloso, às vezes se traveste em poeta do absurdo, por sua lucidez irreverente, que provocam ebulição em muitas mentes. Numa de suas composições apocalípticas, “Ele me deu um beijo na boca”, conseguiu traduzir os paradoxos do país e a insensatez que impera na gestão do interesse público na Amazônia: “Eu sei que o mundo/É um fluxo sem leito/E e só no oco do seu peito/ Que corre um rio/Mas ele concordou que a vida é boa/ Embora seja apenas a coroa/A cara, e o vazio/ E ele riu, e riu, e riu e ria/ Disse: Basta de filosofia!/ A mim me bastava que o prefeito desse um jeito/ Na cidade da Bahia”.

Fonte:  Alfredo Lopes – BrasilAmazôniaAgora